22 janeiro 2026

Novo Hospital Central do Algarve: investimento estruturante que exige uma política de recursos humanos consistente (Ação Socialista n.º 1861 de 22.01.2026)

Por Ana Magalhães

A deliberação do Conselho de Ministros, em 9 de janeiro de 2026, autorizou a celebração de contrato para o novo Hospital Central do Algarve, até 426,6 milhões de euros, representando um passo importante na modernização da infraestrutura hospitalar da região. Esta obra, há muito reclamada pela população e autarquias, surge num território com fortes assimetrias demográficas e significativa sazonalidade turística. Contudo, é essencial sublinhar que o investimento em infraestruturas, por si só, não garante a melhoria do acesso, qualidade ou continuidade dos cuidados de saúde.

 

O principal desafio do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no Algarve é a escassez de recursos humanos. A dificuldade em atrair, fixar e reter médicos, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica (TSDT) e enfermeiros compromete a capacidade de resposta, independentemente de novos edifícios ou equipamentos. Este problema é agravado por salários pouco competitivos, carreiras desatualizadas, progressões bloqueadas e contratos precários que não promovem estabilidade nem compromisso a longo prazo.

 

O Algarve apresenta uma demografia diferenciada: aos cerca de 460 mil residentes soma-se uma população flutuante permanente e um aumento significativo durante a época turística, pressionando os serviços de saúde. Esta realidade exige planeamento diferenciado, com financiamento, pessoal e organização ajustados à região, sob risco de rutura previsível.

 

A fixação de profissionais também é dificultada pelo elevado custo de vida, em particular de habitação, e a ausência de incentivos nacionais específicos agrava o insucesso das políticas de retenção de profissionais.

 

A falta de respostas estruturais gera fragilidade institucional, refletida no encerramento temporário de serviços essenciais, como urgências, obstetrícia e pediatria, não por falta de procura, mas pelo incumprimento dos rácios mínimos de segurança clínica.

 

Assim, o investimento em saúde deve ser integrado, estratégico e sustentável. Para além do hospital, é necessária a implementação de medidas complementares, como programas de habitação para profissionais, protocolos com autarquias para alojamento a custos controlados, incentivos financeiros e fiscais, revisão das carreiras e criação de vínculos estáveis.

 

Paralelamente, é crucial a aposta a nível organizacional, promovendo formação contínua, investigação clínica e gestão eficiente, bem como a aposta em tecnologia e inovação para captar talento e valorizar o desempenho dos profissionais. Também é importante reforçar a literacia em saúde e os cuidados de proximidade, promovendo prevenção, articulação entre níveis de cuidados e uso racional dos recursos hospitalares, diminuindo a pressão sobre os hospitais.

 

A saúde deve ser prioridade estratégica para o desenvolvimento regional e coesão territorial. Sem profissionais valorizados, carreiras dignas e vínculos estáveis, não há serviços funcionais nem sustentabilidade.

 

O novo Hospital Central do Algarve é parte da solução, mas não substitui as reformas estruturais necessárias há demasiado tempo.

 

 

Acção Socialista:

https://www.accaosocialista.pt/?edicao=1861#/1861/novo-hospital-central-do-algarve-investimento-estruturante-que-exige-uma-politica-de-recursos-humanos-consistente

 

 

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