Por Ana Magalhães
A deliberação do Conselho de Ministros, em 9 de janeiro de 2026, autorizou
a celebração de contrato para o novo Hospital Central do Algarve, até 426,6
milhões de euros, representando um passo importante na modernização da
infraestrutura hospitalar da região. Esta obra, há muito reclamada pela
população e autarquias, surge num território com fortes assimetrias
demográficas e significativa sazonalidade turística. Contudo, é essencial
sublinhar que o investimento em infraestruturas, por si só, não garante a melhoria
do acesso, qualidade ou continuidade dos cuidados de saúde.
O principal desafio do
Serviço Nacional de Saúde (SNS) no Algarve é a escassez de recursos humanos. A
dificuldade em atrair, fixar e reter médicos, técnicos superiores de
diagnóstico e terapêutica (TSDT) e enfermeiros compromete a capacidade de
resposta, independentemente de novos edifícios ou equipamentos. Este problema é
agravado por salários pouco competitivos, carreiras desatualizadas, progressões
bloqueadas e contratos precários que não promovem estabilidade nem compromisso
a longo prazo.
O Algarve apresenta
uma demografia diferenciada: aos cerca de 460 mil residentes soma-se uma
população flutuante permanente e um aumento significativo durante a época
turística, pressionando os serviços de saúde. Esta realidade exige planeamento
diferenciado, com financiamento, pessoal e organização ajustados à região, sob
risco de rutura previsível.
A fixação de
profissionais também é dificultada pelo elevado custo de vida, em particular de
habitação, e a ausência de incentivos nacionais específicos agrava o insucesso
das políticas de retenção de profissionais.
A falta de respostas
estruturais gera fragilidade institucional, refletida no encerramento
temporário de serviços essenciais, como urgências, obstetrícia e pediatria, não
por falta de procura, mas pelo incumprimento dos rácios mínimos de segurança
clínica.
Assim, o investimento
em saúde deve ser integrado, estratégico e sustentável. Para além do hospital,
é necessária a implementação de medidas complementares, como programas de
habitação para profissionais, protocolos com autarquias para alojamento a custos
controlados, incentivos financeiros e fiscais, revisão das carreiras e criação
de vínculos estáveis.
Paralelamente, é
crucial a aposta a nível organizacional, promovendo formação contínua,
investigação clínica e gestão eficiente, bem como a aposta em tecnologia e
inovação para captar talento e valorizar o desempenho dos profissionais. Também
é importante reforçar a literacia em saúde e os cuidados de proximidade,
promovendo prevenção, articulação entre níveis de cuidados e uso racional dos
recursos hospitalares, diminuindo a pressão sobre os hospitais.
A saúde deve ser
prioridade estratégica para o desenvolvimento regional e coesão territorial.
Sem profissionais valorizados, carreiras dignas e vínculos estáveis, não há
serviços funcionais nem sustentabilidade.
O novo Hospital
Central do Algarve é parte da solução, mas não substitui as reformas
estruturais necessárias há demasiado tempo.
Acção Socialista:
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