28 maio 2026

Defender a carreira docente é defender a Escola Pública (Ação Socialista n.º 1948 de 28.05.2026)

Por José Pinheiro

Vivemos um confronto entre duas visões da sociedade e, inevitavelmente, duas visões da escola. Uma, inspirada por uma lógica neoliberal e tecnocrática, encara a educação sobretudo através dos critérios do mercado, da competitividade e da eficiência administrativa. Outra, assente na tradição da Escola Pública democrática, vê a educação como instrumento de emancipação, igualdade de oportunidades e construção da cidadania.

Este confronto não é abstrato. Ele manifesta-se hoje de forma muito concreta na discussão em torno da revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD). E importa dizê-lo com clareza: o que está em causa não é uma mera reorganização técnica ou burocrática. Está em causa a própria natureza da profissão docente e o modelo de escola que queremos para o futuro.

As propostas que têm vindo a público suscitam preocupações legítimas. A possibilidade de diluir o ECD na Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, a aplicação de modelos como o SIADAP, a introdução de mecanismos de diferenciação assentes em prémios ou quotas, a fragilização do concurso nacional ou a integração na Tabela Remuneratória Única representam mais do que alterações administrativas: traduzem uma determinada conceção da educação e do papel do professor.

Defender a carreira docente enquanto corpo especial da Administração Pública não é reclamar privilégios. É reconhecer a especificidade de uma profissão que exige responsabilidade pedagógica, conhecimento científico, equilíbrio e compromisso social.

Ao longo dos últimos anos, o discurso dominante sobre a educação foi frequentemente marcado pela ideia da “crise da escola” e pela importação de modelos de gestão inspirados no setor privado. Rankings, exames como instrumento de seleção precoce, competição entre escolas, lógica empresarial na gestão educativa, passaram a ocupar o centro do debate. Como alertaram diversos investigadores das Ciências da Educação, estas orientações tendem a reduzir a educação a uma mercadoria e os alunos a consumidores.

Ora, a escola não é um supermercado educativo. A educação não pode ser encarada como um simples produto sujeito às regras do mercado. Quando isso acontece, agravam-se inevitavelmente as desigualdades sociais e enfraquece-se a coesão coletiva.

É significativo que países frequentemente apontados como exemplos de sucesso educativo, como a Finlândia, tenham seguido precisamente o caminho inverso: valorização social dos professores, confiança nos profissionais, estabilidade das carreiras e forte investimento na Escola Pública. Como afirmou, numa visita a Portugal, um ministro finlandês da Educação, e que já relatei noutro espaço: “os professores têm sido um dos segredos do nosso sucesso”. Entre nós, por vezes parece caminhar-se em sentido contrário.

Também António Nóvoa tem alertado para o facto de o debate educativo ser frequentemente realizado sem os professores. Discute-se a escola e a educação, mas raramente se escutam aqueles que diariamente vivem a realidade das salas de aula. Ora, nenhuma reforma educativa séria pode ser construída contra os professores ou ignorando-os.

O concurso nacional centralizado, baseado na graduação profissional, constitui um dos pilares de transparência e equidade do sistema. A sua substituição por modelos vagos de “procedimento concursal”, sujeitos a entrevistas, avaliações subjetivas ou critérios localizados, abriria espaço à arbitrariedade e ao favorecimento.

Há ainda uma questão decisiva: a Escola Pública necessita de estabilidade. Necessita de professores respeitados, motivados e reconhecidos socialmente. Quando se fragiliza a carreira docente, quando se transforma o professor num simples executor administrativo, enfraquece-se inevitavelmente a qualidade do ensino.

Nos últimos anos tornou-se evidente a dificuldade em atrair jovens para a profissão. Faltam professores em várias regiões e grupos disciplinares. Multiplicam-se sinais de desgaste, desmotivação e envelhecimento do corpo docente. Perante este cenário, seria expectável uma política de valorização efetiva da carreira. Contudo, muitas das propostas - agora apresentadas no processo de revisão do ECD - seguem precisamente no sentido contrário.

A educação nunca é neutra. Traduz sempre uma determinada conceção de sociedade. E aquilo que hoje se decide sobre a carreira docente terá consequências profundas no futuro da Escola Pública e da democracia.

Defender os professores não é uma questão corporativa. É recusar que a educação seja reduzida a critérios de mercado ou a meros instrumentos de gestão tecnocrática. É afirmar que o futuro de um país depende, em grande medida, do respeito que dedica aos seus professores.

Porque, no fim de contas, defender a carreira docente é defender a própria ideia de Escola Pública como bem coletivo, instrumento de igualdade e pilar essencial de uma sociedade verdadeiramente democrática.


Acção Socialista:

https://www.accaosocialista.pt/?edicao=1948#/1948/defender-a-carreira-docente-e-defender-a-escola-publica

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