08 outubro 2026

O Trabalho Digno, um Imperativo Democrático (Ação Socialista n.º 2020 de 08.10.2026)

Por Juan Ascenção

A sete de outubro assinalou-se a Jornada Mundial pelo Trabalho Digno, uma iniciativa que desde 2008, mobiliza o movimento sindical e as forças progressistas a nível global. Longe de ser apenas uma efeméride de calendário ou uma rotina discursiva, esta data assume atualmente uma relevância sem precedentes. Vivemos tempos de profunda reconfiguração geopolítica e incerteza económica, marcados pela erosão contínua do poder de compra, pela pressão inflacionista sobre os bens essenciais e por uma ofensiva ideológica que insiste em tratar o trabalho não como um direito fundamental, mas como uma mera variável de ajustamento económico e orçamental.

A mensagem que se reitera a nível internacional é clara: não haverá sustentabilidade democrática nem progresso económico se não colocarmos a dignidade humana e o valor do trabalho no centro das decisões políticas.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) define o trabalho digno a partir de quatro pilares essenciais: a garantia dos direitos fundamentais no trabalho, a criação de emprego de qualidade, a extensão e robustez da proteção social e a centralidade da negociação coletiva através do diálogo social permanente. Na matriz do socialismo democrático, estes pilares não são aspirações abstratas; são o alicerce da coesão e da justiça distributiva. Quando a direita e as correntes liberais encaram a desregulamentação e a flexibilidade do mercado laboral desenfreada como motores de competitividade, esquecem que as economias assentes em baixos salários e na desvalorização do trabalho condenam os países à mediocridade produtiva e à instabilidade social.

Essa fatura tem sido cobrada com especial incidência às gerações mais jovens. Os dados internacionais revelam dezenas de milhões de jovens privados do acesso ao emprego formal, empurrados para a informalidade ou enredados na armadilha da precariedade perpétua. O fenómeno dos jovens que não estudam nem trabalham não representa uma falha individual de resiliência ou de mérito; é a denúncia explícita de um modelo económico que abdica do seu ativo mais qualificado e transformador, os jovens a sua formação e as suas qualificações.

Na realidade portuguesa, apesar dos avanços estruturais alcançados ao longo dos últimos anos no quadro da Agenda do Trabalho Digno e na valorização do salário mínimo, persistem bloqueios estruturais que urge erradicar. Continuamos a testemunhar o abuso de falsos estágios, a proliferação encapotada de falsos recibos verdes em relações de clara dependência hierárquica e ao abuso sistemático da contratação a prazo em postos de trabalho permanentes. A este panorama somam-se as novas formas de dependência digital: a economia de plataformas e o trabalho gerido por algoritmos, onde a desresponsabilização patronal surge disfarçada de falso empreendedorismo.

As consequências deste modelo são devastadoras. Quando uma geração com níveis inéditos de qualificação académica é confrontada com a estagnação salarial e a incerteza contratual num contexto de crescente dificuldade no setor imobiliário, o resultado é o desalento, a emigração forçada do melhor capital humano e o agravamento do défice demográfico. Um jovem que não sabe se terá trabalho a curto e a médio prazo não consegue alugar casa, não consegue aceder ao crédito, não consegue construir família e não projeta a sua vida. A precariedade laboral é a base de muitas inseguranças contemporâneas.

Perante esta encruzilhada, a resposta da esquerda democrática não pode ser a tibieza nem a retórica de circunstância. Não chegam paliativos que meramente subsidiam a precariedade com fundos públicos. Exige-se uma agenda reformista robusta e resiliente focada em três prioridades:

Em primeiro lugar, o fortalecimento efetivo da negociação e contratação coletiva, dinamizando os acordos setoriais e impedindo a caducidade unilateral dos contratos que desprotejam os trabalhadores. Em segundo lugar, o reforço da fiscalização através da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), dotando-a de meios humanos e tecnológicos para fiscalizar eficazmente a fraude e todas as formas de exploração laboral. Em terceiro lugar, um modelo de incentivos públicos à economia que condicione rigorosamente os apoios estatais à estabilidade efetiva dos contratos e à criação de emprego com a promoção de carreiras dignas e bem remuneradas.

O trabalho digno não é um luxo, nem um custo acessório, nem uma concessão condescendente do mercado. É o pilar estrutural sobre o qual se constrói a soberania cívica, o Estado Social e a esperança num futuro comum melhor. Defender o trabalho com direitos, em condições de liberdade, equidade e dignidade é, em última instância, defender a própria democracia.

Acção Socialista:

https://www.accaosocialista.pt/?edicao=2020#/2020/o-trabalho-digno-um-imperativo-democratico