10 setembro 2026

Inteligência Artificial: progresso tecnológico tem de significar progresso social (Ação Socialista n.º 2001 de 10.09.2026)

Por Fernando Gomes

A Inteligência Artificial (IA) está a transformar rapidamente a economia, as empresas e o mundo do trabalho. Não estamos perante uma mudança que possamos travar. Dizem-nos que a inovação tecnológica pode aumentar a produtividade, melhorar processos, eliminar tarefas repetitivas ou perigosas e criar novas actividades e profissões. A questão essencial é outra: como garantir que este progresso tecnológico se transforma também em progresso social?

A resposta não pode ficar exclusivamente nas mãos das empresas ou do mercado. A introdução da Inteligência Artificial nos locais de trabalho tem consequências, entre outros, sobre o emprego, as qualificações, a organização do trabalho, os salários, os ritmos de trabalho e os próprios direitos dos trabalhadores. Por isso, exige regulação, negociação colectiva e diálogo social.

A Espanha acaba de dar um sinal importante. O Governo espanhol anunciou a intenção de promover um Pacto Nacional sobre Inteligência Artificial, envolvendo as confederações sindicais e patronais, procurando integrar a IA no tecido produtivo, reduzir os seus riscos e assegurar uma distribuição justa dos benefícios resultantes do aumento da produtividade.

Em Portugal, o Governo da AD (PSD/CDS), demasiado ocupado a gerir as suas fragilidades éticas e políticas e sem revelar uma visão estratégica para o país, poderia olhar para este exemplo e propor um caminho semelhante.

A Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), de composição tripartida, que reúne Governo, confederações patronais e confederações sindicais, é o espaço adequado para negociar um Pacto para a Inteligência Artificial e o Trabalho, capaz de antecipar as transformações que já estão a chegar às empresas e aos serviços públicos.

Um pacto desta natureza deveria partir de um princípio fundamental: nenhum trabalhador pode ser abandonado pelo progresso tecnológico.

Isso significa proteger o emprego sempre que seja possível, mas significa também antecipar as mudanças. Quando determinadas profissões ou tarefas forem transformadas ou substituídas, terão de existir mecanismos efectivos de formação e requalificação profissional que permitam aos trabalhadores adquirir novas competências e transitar para novas funções ou profissões. A formação ao longo da vida não pode continuar a ser apenas uma declaração de intenções. Tem de constituir um verdadeiro direito dos trabalhadores e uma responsabilidade partilhada entre Estado e empresas.

Esta preocupação é particularmente importante para os jovens. São eles que entrarão num mercado de trabalho profundamente marcado pela Inteligência Artificial, mas isso não significa que estejam automaticamente protegidos dos seus efeitos. Pelo contrário, estudos europeus alertam para uma distribuição desigual dos benefícios da transformação tecnológica e identificam precisamente os jovens e os trabalhadores menos qualificados entre os grupos mais expostos aos seus impactos negativos.

Há ainda outra dimensão que não pode ser ignorada: quem controla os algoritmos que começam a controlar partes importantes da nossa vida profissional?

A Inteligência Artificial já pode participar na selecção de candidatos, distribuição de tarefas, avaliação do desempenho, definição de horários, progressão profissional ou mesmo em decisões relacionadas com a manutenção do emprego. Nenhuma destas decisões pode transformar-se numa caixa negra incompreensível para o trabalhador e para os seus representantes.

Os algoritmos devem ser transparentes, auditáveis e sujeitos a supervisão humana. E têm de ser concebidos e utilizados de forma a impedir discriminações, directas ou indirectas, em razão do sexo, idade, origem nacional, racial ou étnica, deficiência, orientação sexual, religião ou qualquer outra condição. A tecnologia não pode reproduzir, esconder ou ampliar preconceitos existentes na sociedade.

Também aqui o movimento sindical terá um papel insubstituível. Os trabalhadores e os seus representantes devem ter direito à informação, consulta e negociação sobre a introdução de sistemas de Inteligência Artificial que afectem o emprego e as condições de trabalho. A negociação colectiva terá de entrar definitivamente na era dos algoritmos.

Mas existe uma condição para que o movimento sindical consiga responder com força a uma transformação desta dimensão: uma ampla convergência sindical.

A Inteligência Artificial não distingue trabalhadores representados pela CGTP-IN, UGT, ou de Sindicatos Independentes, nem trabalhadores não sindicalizados. Os desafios são comuns. Perante uma transformação estrutural do trabalho, o movimento sindical português precisa de encontrar espaços de convergência que lhe permitam defender posições comuns sobre emprego, formação, direitos digitais, utilização de algoritmos e distribuição da riqueza gerada.

Se a Inteligência Artificial permitir produzir mais e melhor, os ganhos de produtividade daí resultantes têm de chegar também a quem trabalha: através da valorização dos salários, das carreiras, da melhoria das condições de trabalho, da formação profissional e, também, da redução do tempo de trabalho.

O progresso tecnológico só será verdadeiramente progresso se melhorar a vida das pessoas.

Um Pacto para a Inteligência Artificial e o Trabalho, negociado em Concertação Social, poderia ser um importante passo nesse sentido. Não para impedir a mudança, mas para a governar democraticamente. Não para proteger o passado, mas para construir um futuro no qual a tecnologia esteja ao serviço das pessoas e o aumento da produtividade seja acompanhado por mais direitos, mais qualificações, melhores salários e maior justiça social.

A Inteligência Artificial vai mudar o trabalho. A questão política e social que temos pela frente é garantir que essa mudança não deixa ninguém para trás.

 Acção Socialista:

https://www.accaosocialista.pt/?edicao=2001#/2001/inteligencia-artificial-progresso-tecnologico-tem-de-significar-progresso-social